NLM: quem é o grupo evangélico disfarçado de banda de pop punk

Pouco conhecida no Brasil, banda organizou grande turnê e usou atrações locais como 'isca' para trazer público aos shows, que se tornam cultos evangélicos

Publicado em 22/06/2022 07:00
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Imagine que você descobriu um evento gratuito com várias bandas de rock legais, em um local bem estruturado. Tudo parece bastante atraente e você decide comparecer para se divertir, mas, ao chegar lá, você é surpreendido com uma pregação religiosa. Foi essa a surpresa de muitas pessoas que foram ao show da banda NLM.

O grupo, apesar de não ser conhecido na cena do rock underground, anunciou uma mega turnê pelo Brasil, dadas as proporções da banda, com shows por cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e região sul do Brasil. E quem foi aos eventos, teve uma experiência, no mínimo, inusitada.

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O assunto ganhou força quando Gabriela Cavalherio, que é produtora de conteúdo e estava no show de São Paulo, realizado no Carioca Club na última sexta-feira (17/04), fez uma longa thread no twitter, contando sobre as nuances do show da NLM e como a coisa descamba de uma apresentação de rock para uma pregação evangélica sem aviso prévio e problemática.

A banda sobe ao palco, toca suas músicas e apresenta ao público algo bem performático: bailarinos, pirofagia, malabaristas e outros elementos artísticos. Algo definido por Gabriela como um “Panic! At The Disco de baixo orçamento”. Mas, na parte final do show, a coisa começa a mudar de figura.

O grupo faz uma encenação de um suicídio no palco, assunto bastante delicado. Tudo isso para ilustrar uma batalha de vida contra morte, onde a ‘cura’ para o que eles chamaram de ‘escravidão espiritual’ seria o ‘amor de Deus’. Depois disso, uma roda de oração é instaurada no recinto e, ali, eles começam a evangelizar o público. Pessoas que estavam nos shows confirmaram à coluna que alguns presentes se sentiram desconfortáveis e tiveram gatilhos emocionais ativados.

Uma outra fonte contou à coluna que a situação foi bem parecida no show que ocorreu no Circo Voador, no Rio de Janeiro, no último domingo (19/06). O show começa como uma apresentação de banda de pop punk qualquer, com toda aquela animação, e, de repente, o plot twist: você se torna o ‘jovem perdido’ que eles querem encontrar.

“O som dos caras é até de boa, digamos que os primeiros 20 minutos do show são legais. É uma banda de pop punk com umas encenações, engraçado até. Quem imaginaria que o show de uma banda que traz capacete com fogo, guitarra girando e uma pessoa de ponta-cabeça com pratos iria se tornar um culto com gatilhos?”, contou a fonte.

“Só que chega um momento em que começa a pregação e a história bíblica. Deixando claro que o problema não é religião, mas sim como foi colocado no show”. A fonte, então, relata com detalhes a maneira insensível como a banda simulou o tal suicídio. Atenção, pois o conteúdo pode conter gatilhos:

“Tudo tem início com um casal que é separado, o menino troca a menina por outra pessoa, a garota fica desesperada, até que uma outra pessoa chega e fala que ela não merece aquilo (com tradução simultânea pra português). Meio que tudo evolui e ela se relaciona com essa pessoa (o público assiste essa parte através das sombras projetadas em um pano branco). Após isso, a menina aparece num balanço e vamos para outra rodada de pregação, Nessa hora, a música já era quase nula. A garota segue escrevendo mensagens, que aparecem no telão, como se fosse uma despedida. Nisso, o vocalista (Ben Pierce) aparece com um forca, fazendo uma alusão direta ao suicídio. Enquanto ela está pensando no que fazer, o vocalista – interpretando o que entendi ser o Diabo -, fala coisas como ‘pensa o quanto dramático vai ser? as pessoas vão postar sobre isso nas redes sociais, levantar hashtag e depois vão te esquecer’. Aí aparece uma outra pessoa para salvá-la, o que entendo como Jesus. Ele se coloca entre ela e a morte, e no fim morre por ela, acorrentado. Aí, aparece um caixão de acrílico com leds, que é posto em cima desta pessoa, aparece um anjo e o cara morto ressuscita. Depois disso tudo, rolou um papo sobre o Cristo Redentor e a figura que ele representava e terminou o show perguntando basicamente quem gostaria de conhecer esse Jesus de quem estavam falando”.

Confira o momento da ‘tal ressurreição’ encenada pela NLM:

Como surgiu e o que pretende a NLM

A NLM (abreviação para No Longer Music) é formada por artistas-missionários de várias partes do mundo, como Estados Unidos, Brasil, Uruguai, Finlândia e outros países. A trupe faz um som com raízes no pop punk e outras vertentes do movimento emo, mas sua origem está calcada em outro movimento: o cristão. A banda surgiu dentro de um grupo de estudos chamado Steiger, que foi fundado na Holanda, em 1983, por um pregador chamado David Pierce, que buscava evangelizar jovens no auge do movimento punk europeu.

O objetivo do Steiger através da NLM é “usá-la como ferramenta para comunicar o Evangelho de Jesus para essas pessoas jovens que nunca entrariam em uma igreja”. Além disso, a criação da banda visa chegar em lugares vistos como ‘inalcançáveis’ pelo grupo de cristãos. “Isso levou à criação de ministérios, à criação de novas igrejas e ao surgimento de uma onda de seguidores de Jesus que são apaixonados por levar o amor de Cristo àqueles que, de outra forma, não o experimentariam”, diz um texto disponível no site oficial da organização.

David Pierce, fundador do Steiger e da No Longer Music (Divulgação)

O grupo de estudos é o grande financiador toda a aventura dos ‘emos missionários’ pelo Brasil. Parte da estratégia para atrair o público-alvo da organização, jovens que “nunca haviam pisado em uma igreja antes”, consistia em organizar os eventos com a participação de bandas conhecidas do cenário underground nacional, como Dead Fish, Scaene, Scatolove, Bullet Bane e outros nomes.

E assim, a Steiger age em várias outras frentes da sociedade, como o próprio site da organização detalha, e Gabriela conta em seu fio do Twitter. “David tem levado a mensagem de jesus para os ‘pontos mais escuros da sociedade’, incluindo países islâmicos, clubes terroristas, festivais anárquicos, punks, góticos, satanistas”, diz um trecho das informações disponíveis no site oficial.

O que pensam as bandas brasileiras que dividiram palco com a NLM

Ao se deparar com tanta insanidade, é comum se perguntar se os contratantes, produtores dos eventos e bandas que tocaram junto com o grupo realmente não sabiam nada a respeito disso. E a resposta é: Não sabiam. Enquanto alguns alegam que não costumam tomar conhecimento de todas as atrações com as quais dividirão palco, outros disseram que se sentiram enganados pela maneira que foi apresentada a banda.

A surpresa foi tanta que a reação de alguns é o enfrentamento direto, como alguns integrantes da Scalene fizeram no show realizado em São Paulo. Sebastian, membro da banda Francisco, el Hombre, estava na casa para se apresentar com seu projeto solo, Sebastianismos. Ele contou à coluna que presenciou um desentendimento entre a banda brasileira e os músicos cristãos.

Membros da banda se manifestaram nas redes sociais, mas não quiseram levar o assunto adiante. “Bom galera, tem 13 anos que trabalho com isso e o único aspecto que não mudou nesse tempo é o fato de que vocês continuam dando mais Ibope pra treta e fofocando/espalhando coisa sem saber dos fatos, do que pra música da suposta ‘cena’ que vocês curtem. Uma pena”, disse Lukão, baixista da Scalene.

A banda de Brasília comunicou aos fãs que não tocará com a NLM na data que estava marcada para Porto Alegre, na próxima sexta-feira (24/06). Com relação ao show de Florianópolis, que também seria feito em parceria com a NLM no sábado (25/06), o grupo conseguiu manter a data e a entrada gratuita. Já a banda norte-americana teve sua participação cancelada.

Outra artista que comentou o assunto de forma mais direta foi Day Limns, que dividiu palco com a NLM no Circo Voador. Em uma postagem no twitter, ela detalha uma conversa que teve com os membros da banda e disse que se sente triste por ter feito parte da situação, além de lamentar como tudo ocorreu.

“Interessante, a ideia de misturar geral, tudo no mesmo rolê, se respeitando, adoro a ideia quase utópica disso, mas, meu parceiro? Tô me sentindo levemente enganada e a piada já vem pronta porque eu vivi isso tantas vezes na vida que parece que poderia ser eu fazendo um negócio desses, em uma realidade paralela. (…) Me dá até arrepio”, disse a cantora, em um trecho do seu desabafo nas redes.

Luciano Paz, dono da Tomarock produções, empresa responsável por vários eventos da cena rock fluminense, publicou uma nota de esclarecimento nas redes sociais. Foi dele a responsabilidade pela organização do show realizado no Rio, após a Tomarock ter sido contratada por um produtor de São Paulo.

Paz conta que a banda havia relatado que o show seria feito com base em uma grande estrutura, mas que não era do conhecimento de ninguém que a NLM era cristã. Ele atribuiu isso a diferença de pesquisar ‘No Longer Music’ na internet, nome completo da banda e que mostra tudo sobre os posicionamentos cristãos do grupo, e ‘NLM,’ versão abreviada do nome. Segundo ele, uma pesquisa rápida, com base no nome completo, resolveria a questão.

Por fim, em nome da Tomarock, que está prestes a completar 19 anos de existência, Luciano se desculpou com o público e disse que, no fim das contas, a sensação é de que todos foram vítimas de um golpe. “Tivemos nosso nome e credibilidade utilizados para a realização da turnê. A todos que se sentiram afetados, confusos e com gatilhos pesados com as encenações da banda sobre suicídio e depressão, nos desculpamos imensamente. Nosso dever é levar entretenimento para quem participa dos nosso shows, não dor”, diz a nota.

Nota divulgada por Luciano paz, dono da Tomarock produções (Reprodução/Instagram)

Outra banda que optou por se dissociar da NLM foi a Cefa, fundada em Curitiba. O grupo faria uma série de shows com os norte-americanos, mas, dados os últimos acontecimentos, optou por cancelar a mini-tour pelo Sul do Brasil em conjunto com os missionários enrustidos.

“Infelizmente resolvemos cancelar a nossa participação na tour junto com o NLM pelo sul nesta semana. Conversamos muito sobre essa situação e devido a coisas que estão fora do nosso alcance, não nos sentimos confortáveis em realizar esses shows”, disse a banda.

O Golpe tava aí o tempo todo, só a gente não viu

A situação escala tanto os níveis de absurdo, que ninguém poderia imaginar que tudo isso seria possível de acontecer. Sendo assim, podemos validar o que disse Luciano Paz. Se a banda se vendesse como No Longer Music, nome de origem do grupo, tudo seria mais fácil de ser apurado, e a estratégia do Steiger iria por água abaixo. Para evitar isso e conseguir penetrar os mais variados ‘rolés’ mundo afora, a abreviação NLM é usada, pois faz qualquer pessoa imaginar que é “apenas mais uma banda de pop punk dos Estados Unidos”.

As pesquisas pela sigla na internet, pelo menos antes de todo o bafafá, mostravam isso: uma banda de rock, que pode até fazer um som cristão, mas, qual seria o problema, não é mesmo? De fato, não há. Várias bandas importantes da cena pop punk/emo são de origem cristã, como Skillet, Emery, Underoath, entre outros exemplos.

A maracutaia envolvendo os nomes foi crucial para que não descobríssemos antes da hora, por exemplo, que as mesmas datas divulgadas pela NLM (a banda) para a turnê no Brasil, estavam sendo divulgadas pela Steiger (a organização) como a ‘tour do evangelismo’.

O perfil oficial da organização no instagram restringiu comentários e apagou as postagens sobre a tal tour, mas, passeando pelos conteúdos gerados para as redes sociais, fica fácil de entender que há toda uma lógica para penetrar o que eles chamam de ‘cultura jovem global’, como essa postagem explica:

“Jovens do mundo todo estão conectados, ouvindo as mesmas músicas, assistindo aos mesmos filmes e séries, consumindo as mesmas marcas e estão constantemente em busca de prazer. No entanto, sentem-se extremamente sozinhos e sofrem com ansiedade e depressão.

Esses jovens não procuram respostas na igreja, pois não acreditam em uma verdade absoluta e a fé em Deus não é algo relevante para suas vidas. Eles nunca entrariam em uma igreja!

É essa galera que a missão Steiger quer alcançar e discipular. Nós temos a Esperança que essa cultura precisa e temos o dever de anunciá-la!”.

Por fim, é importante ressaltar que todas as religiões podem realizar seus cultos, falar sobre o que acreditam, buscar conexões. O Brasil garante essa pluralidade na lei, por exemplo. No entanto, é preciso ter consciência de que a comunicação precisa ser clara e o mais direta possível. Assim, quem não quer, segue sua vida, como nosso país (ainda) permite.

O que foi feito pela NLM no Brasil é amplamente invasivo e baixo, apelando para gatilhos e fraquezas inerentes ao jovem médio, que busca na música enquanto expressão artística, algo para proporcionar lazer, uma fuga do cotidiano triste e cinzento. A música, assim como qualquer tipo de arte, não precisa ser religiosa para ter poder espiritual.

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